CONTRABANDO DE PEÇAS ARQUEOLÓGICAS E O IDEALISMO PALPÁVEL DA REPATRIAÇÃO
Por: Márcia Jamille Costa[1]| 29/07/09

Acerca de oito anos o Dr. Zahi Hawass tenta reaver peças arqueológicas como a pedra de Roseta (retirada do Egito por Napoleão Bonaparte), o busto da rainha Nefertiti (levada do Egito por um arqueólogo Alemão em circunstancias questionáveis) e muitas outras peças que foram contrabandeadas. A atitude dele inspirou outros países a fazer o mesmo o que colocou os grandes museus em uma situação frágil, uma vez que parte de seus acervos são compostos por espólios de guerra, negociações com nativos, ou concessões por parte de doadores de índole duvidosa.

Todos os sítios são bens patrimoniais, o que lhes confere proteção, mas, mesmo com o esforço da UNESCO, os ministérios de cultura e até mesmo órgãos policiais como a CIA os crimes contra antiguidades ainda são efetivos. O mais constrangedor disto é que os maiores negociantes são pessoas nativas da região em que o objeto é encontrado, mas não são de todo desinformados, alguns sabem da importância significativa do artefato e por isto os vende.

É bom que se fique claro que não é porque esta é sua propriedade que se pode vender. Há casos pelo o mundo de famílias que se sustentam da venda de peças arqueológicas encontradas praticamente em seu quintal, mas isto não lhe dá direito algum. Mesmo se for para sustento próprio não é justificável que se negocie parte da antiguidade de um país, vender uma peça arqueológica também é assassinato do passado.

Situação mais complicada ainda é com os sítios debaixo da água: quando os artefatos se encontram em águas internacionais não possuem um dono, “o primeiro que chegar leva”. O mais lamentável ainda é que há programas de TV que tentam levar esta ação como justificável. Este problema com as águas internacionais tornou-se gritante quando em 1964 pescadores italianos encontraram uma estatua grega de bronze, produzida entre 300 e 100 a.C, em sua rede de pesca. O objeto foi vendido para o Getty Museum (EUA), mas quarenta anos depois a Itália pede o artefato de volta alegando contrabando por parte dos vendedores e o comprador, mas o museu, por sua vez, se justificou afirmando que não ocorreu crime, uma vez que a estátua foi encontrada em águas internacionais antes de chegar à Itália.

Mas, sem a desculpa de “território sem lei” outros museus ficam numa situação frágil, um deles é o Museu Britânico que resguarda em seu acervo a Pedra de Roseta retirada do Egito por Napoleão Bonaparte e entregue a Inglaterra como um dos “troféus” de guerra. Com o Tratado de Viena (1815) foi estabelecido que as peças espoliadas durante as batalhas napoleônicas deveriam ser devolvidas aos seus países de origem, mas a pedra continuou na terra da rainha.

Estas reivindicações dividiram a opinião dos especialistas, de um lado estão arqueólogos e governos que acreditam que as peças devem ser restituídas para o seu país de origem, do outro estão colecionadores e diretores de museus, mas em uma situação ou outra os dois pólos parecem entrar em concessão, alguns museus nem precisam esperar um pedido oficial, simplesmente devolvem de bom grado, como foi o caso da suposta múmia do faraó Ramsés I devolvida após 140 anos pelo o Museu Michael C. Carlos de Atlanta que a tinha comprado de outro museu que se encontrava na falência. 

O maior problema sobre o devolver ou não devolver está no fato de que não há nada claro de como se fazer isto. Muitas situações são extremamente complicadas como é o caso do busto da rainha Nefertiti que foi levado em 1925 por arqueólogos alemães que fizeram escavações consentidas pelo governo do Egito sob o acordo de que as obras "menos importantes" seriam encaminhadas para a Europa. No entanto, segundo os egípcios, eles não foram informados que os europeus estavam em posse de uma obra de tão inestimável valor, a peça teria passado despercebida porque estaria propositadamente camuflada para não ser notada pela inspeção.  

Egito, Itália, Peru, Grécia e Etiópia são os países em destaque nesta luta que até alguns anos atrás era idealista, mas que funcionou muito bem com a devolução de centenas de objetos. Um dos maiores pretextos para não se repatriar as peças está no fato de que os artefatos pertencem à humanidade, mas elas foram retiradas ilegalmente de seus países de origem e o pedido de devolução é algo extremamente admissível, mas a luta é maior do que se pode imaginar, enquanto por um lado estes países requerem suas peças contrabandeadas de volta do outro os saqueadores continuam furtando e lançando mais artefatos para o mercado negro de antiguidades e esta é uma questão relevante principalmente quando vemos que este tipo de atividade só é menor do que o tráfico de drogas e armas.

===========================================

Bibliografia:
Sítios desprotegidos significam história ameaçada, 28/07/09 < http://www.comciencia.br/reportagens/arqueologia/arq03.shtml >
Múmia de Ramsés I é recebida no Egito, 28/07/09 < http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI197798-EI1728,00.html >
“Quero minha múmia”. Veja. Editora Abril, Dezembro, 2003
Para saber mais:
UNESCO Brasil, 28/07/09 < www.brasilia.unesco.org >
UNESCO, 28/07/09 < www.unesco.org/ >
IPHAN, 28/07/09 < www.iphan.gov.br/ >
 
[1]Márcia Jamille Costa é estudante em arqueologia na Universidade Federal de Sergipe e administradora do A.E.  
2009 Por Arqueologia Egípcia
www.arqueologiaegipcia.com.br/textosdosite/texto_contrabando_pecas_ar_repatriacao.html
 

 

 

 

 
Arqueologia Egípcia
Contato: marcia@arqueologiaegipcia.com.br (79) 8105-4346